quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Memória


"A memória é uma armadilha, pura e simples, que altera, e subtilmente reorganiza o passado, por forma a encaixar-se no presente."    Mario Vargas Llosa

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Abrunhosa-a-Velha, Alma Beirã


Depois de percorrermos várias estradas municipais que nos levaram ao destino, eis que chegamos a Abrunhosa-a-Velha, concelho de Mangualde, distrito de Viseu. Munidos do desdobrável de uma rota homologada que facilmente se encontra na internet, os objetivos eram percorrer este prometedor percurso e também conhecer a aldeia em si. Ela aguardava ansiosamente pelas novas descobertas, pelos cheiros típicos das aldeias no outono, pelas aventuras e reavivar as memórias de férias em criança. E eu, sendo fã das aldeias e das zonas rurais, e tendo crescido numa delas, sei que muito há para fazer e para ver contrariando o sentimento de pasmaceira que erradamente muitas vezes se faz passar. Um dos grandes segredos: interagir com os habitantes locais, eles têm sempre algo a acrescentar e uma dica preciosa para dar. A primeira impressão foi uma aldeia construída em declives. Do fundo da aldeia pode ver-se o cimo e são muitas as ruas e ruelas que nos levam lá. Nos primeiros passos, sobressai o valor que os locais dão à maior matéria-prima da região, o granito. A maior parte das casas antigas foram recuperadas mantendo esta pedra, fazendo com que ao percorrer as ruas sentíssemos ainda a genuinidade de outros tempos. A própria arquitetura de grande parte das casas puxa a nossa imaginação para tempos remotos, com uma escadaria de pedra lateral à casa e acabando num patim à porta da entrada. Iniciámos a Rota da Senhora dos Verdes, que percorre a aldeia e parte das serras envolventes. Partimos da antiga e bela Igreja Matriz tendo como padroeira a Santa Cecília, de estilo neoclássico com muitos apontamentos ancestrais e um vitral na frontaria que podemos apreciar de dia as suas cores no interior e de noite no exterior. Tivemos a sorte de conversar com alguns habitantes que aproveitavam o dia soalheiro, entre os quais o senhor responsável pela abertura do templo, que nos fez uma visita guiada pelo mesmo, maravilhado por ter alguém a quem transmitir o que sabia. Logo ao lado, reside uma estátua granítica de homenagem aos combatentes filhos da terra que participaram na guerra do ultramar, no centro de uma pequena praça. Mais uns metros andados damos com o Cantinho dos Poetas, uma ideia de salutar que recuperou espaço ao abandono para dar lugar a um largo de lazer rodeado por painéis de azulejo com poemas dos icónicos autores portugueses. E como este parque, muitos outros fazem-nos reconhecer a visão e o cuidado das entidades competentes em ter uma aldeia cuidada, amiga dos seus habitantes e prazerosa para quem a visita. Outro exemplo disso é o Cantinho dos Ferreiros, um belo miradouro para as serras do Rio Mondego, onde podemos usufruir de um forno comunitário construído em granito e logo abaixo, na continuação do miradouro, admirar o aproveitamento de uma casa antiga que seria para demolir mas que possuía um forno também antigo que foi recuperado assim como parte das paredes graníticas da habitação. Na entrada norte da aldeia, o Parque dos Artistas homenageia as profissões da terra e mais uma vez encontramos bancos de madeira e sombra para fazer uma pausa e contemplar a Serra da Estrela no horizonte. Um parque infantil bem cuidado faz vizinhança com a piscina pública, o campo de futebol de cinco e a casa da cultura, local para eventos comunitários ou privados. Ao sairmos da aldeia palmilhamos por caminhos agrícolas que nos guiam até ao Apeadeiro dos Caminhos de Ferro que nos brinda com dois grandes e belos painéis de azulejo. Continuando por campos de cultivo e olivais chegamos a mais um ex-líbris da aldeia, a Ermida de Nossa Senhora dos Verdes, com todo um espaço curioso e um coreto que nos dias da festa se encherá de vida e música. De regresso à povoação podemos ainda contemplar a curiosa construção que é o Abrigo do Pastor, não sendo preciso puxar muito pela imaginação para saber qual a sua utilidade no passado. Muitas alminhas pelo caminho, algumas até com belo trabalho de relevo na pedra e com bonitos painéis de azulejo, uns mais bem preservados do que outros. No regresso à povoação deparamo-nos com o pelourinho junto à antiga cadeia e tribunal – agora Junta de Freguesia, num largo que nos prenda com mais um bonito chafariz. Chafarizes por todo o lado e algumas fontes de beleza singular, decoram os vários recantos da aldeia. De referir as fontes de chafurdo, uma perto da entrada norte da aldeia e a fonte que enche o tanque comunitário. Continuando a caminhada pelas ruas tratadas e limpas chegamos a uma prensa de lagar exposta num pequeno largo, artefacto este que apenas os mais velhos sabem como funcionava em tempos idos na arte de fazer o vinho. Pudemos constatar para nosso prazer que algumas ruas ainda preservam a famosa calçada romana. Passamos pela antiga casa do juiz e admiramos a janela quinhentista com o seu desenho característico. Encontramos também algumas casas em ruínas mas que em nada afetam o que já vimos que esta aldeia tem para nos oferecer, aliás, até acabam por dar algum ar nostálgico e misterioso ao ambiente da povoação, com as eras a decorar paredes ancestrais de verde, dando cor e vida ao abandono. Continuamos a subir a rua até chegarmos ao Hotel Rural Mira Serra com aspeto bem charmoso, assim como toda a sua envolvência. Os arcos em granito, os bancos de pedra e uma fonte com um fantástico painel de azulejo são alguns dos belos apontamentos que compõem este espaço. E logo acima, andando por um caminho agrícola ladeado por muros de pedra, a peculiar Capela de São Sebastião com um terraço de colunas de granito e uns bancos de pedra que nos pedem para fazer uma pausa ao pôr-do-sol e contemplar toda a aldeia e as serras envolventes, e respirar a esfera de calmaria que se faz sentir. Descemos novamente à povoação e não resistimos a passar pela Igreja para agora admirar o vitral que a luz interior o faz iluminado por fora. Até de noite a aldeia merece ser apreciada, as suas ruas típicas iluminadas pelos candeeiros de arte antiga têm sempre algo novo para descobrirmos e admirarmos. Abrunhosa-a-Velha convida com a sua vista panorâmica sobre a serra; com as suas ruas embelezadas, quer pelo património recuperado, quer pela natureza que nelas emerge; com os seus bancos espalhados pelas ruas, principalmente aqueles à porta das casas que aguardam por quem se sente neles. Bancos que se enchem de emigrantes nos dias grandes de Agosto, que convocam um convívio entre vizinhos, que permitem descansar as pernas de uma população mais envelhecida, que saúdam quem lá vem, bancos que aguardam por uma troca de histórias para contar. No final da visita ficou a sensação de sabor a pouco. Abrunhosa-a-Velha permite-nos voltar no tempo, respirar, meditar, contemplar e descobrir. É por isso que vamos voltar.



































Texto e Fotografias por Bruno Andrade e Vera Pereira

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Bagaço. A Tradição e o Alambique


Os chapins cantam e acompanham-me ao entrar na quinta. Apesar de ser outubro, o sol faz-se sentir bem e sou brindado com uma manhã quente, em que sinto logo o perfume das romãs maduras ao passar o portão. Do lado de dentro sou presenteado pelo belo quadro daqueles que me esperam a preparar o “estaminé” indiferentes às galinhas e patos que aleatoriamente ali passeiam debicando aqui e ali. Depois dos cumprimentos tão autênticos como só as pessoas genuínas desprendidas do materialismo sabem ter, reparo que o alambique, essa grande e bonita peça de cobre já se encontra no lugar. Desloco-me até ele por entre festas ao apelativo cachorro branco de manchas castanhas que late feliz e abana a cauda pedindo-me apenas para ficar com ele ali a brincar o resto da manhã. O dia quente, dando tréguas ao comum frio de outono nesta altura do ano, dá um toque primaveril à quinta, que se movimenta cheia de vida e onde se sente o perfume da fruta da época e das flores cultivadas para enfeitar as campas no dia 1 de novembro. No alambique colocado estrategicamente por cima do que irá ser uma fogueira, é colocada palha no fundo e é-me explicado que serve para o bagaço não agarrar ao cobre, havendo também agora umas grelhas próprias para o efeito. Ainda assim, se é para fazer o mais tradicional possível, será feito como antigamente, como foi aprendido, como as anteriores gerações passaram e como as presentes irão passar às futuras. Já faz tempo que o líquido se foi, agora só a parte sólida do mosto resiste no lagar, o bagaço. O vinho que dele saiu já se encontra nas pipas e nas cubas a maturar, depois da fermentação. O suave e agradável cheiro a uva esmagada emana no ar ao ser colocado dentro dos baldes para por sua vez ser colocado dentro do alambique, esta quase papa de cor vermelho escura. A fogueira é acesa e o fumo dissipa-se pelo lugar ouvindo-se o crepitar da rama seca que o acende. De seguida é posta a parte superior do alambique onde é colocada água fria. Estas duas partes são seladas com uma massa de cinza para não haver fuga de vapor durante o processo. O calor do lume aquece o bagaço que por sua vez vai criar um vapor que sobe e ao chegar ao local onde está a água fria vai condensar e tornar-se líquido. Por uma canalização interna, este líquido sai para o exterior sendo já o produto que se deseja, a aguardente bagaceira. Indiferente a toda esta rotina que se repete ano após ano, a matriarca da família que presa pelo bem-estar da quinta e dos animais que cria, segue também a sua própria rotina diária e já tem junto a si um molho de folhas de couve que corta finamente para os galináceos, que acomoda como se fosse parte da sua vida, pois como ninguém sabe a importância que os bichos têm no sustento familiar, como pelos laços que com estes cria desde o seu nascimento, numa relação de respeito onde terá sempre de dar para um dia receber. Enquanto isso, um fio do néctar que agora vê a luz do dia começa a jorrar, saindo, transparente, por uma cana finalizada por uma espiga de cevada que, serve exclusivamente para guiar o fio para que caia certinho no funil adaptado e por fim no garrafão. Não sou de ferro, portanto não seria de esperar que saísse dali sem provar o bagaço acabadinho de fazer. Depois de recolhe-lo com um copo diretamente do fio que jorra do alambique, inundo as narinas com o cheiro forte mas agradável que não consigo descrever de outra forma se não: bagaço. As papilas gustativas recebem-no com curiosidade, apreciam-no e empurram-no goela a baixo. Tá provado e aprovado. O trabalho ainda não acabou. É preciso limpar o local e deixa-lo impecável para outros trabalhos que na agricultura duram o ano inteiro. Depois de despejada a água e de tirar a parte superior do alambique e colocada a vasilha no atrelado, o trator dirige-se por entre patos, galinhas e galos e com o cachorro alegre e barulhento para o terreno ali próximo para ser despejado e lavado. Depois de ser extraído vinho e aguardente, o bagaço ainda não acabou a seu percurso e é um regalo para os terrenos de cultivo, um ótimo fertilizante natural. Agora sim, é tempo de dar descanso ao corpo com um repasto com os sabores ricos das aldeias, com sabores dali mesmo, daquela quinta que para esta família é riqueza maior, é parte integrante das próprias vidas de quem dela cuida e lhe tira o sustento.
Alambiques há, mais ou menos industriais, preparados para receber o bagaço de muitos produtores e realizar a tarefa mais rápido. No entanto, ainda há quem resista a esta demanda industrializada e prefira fazer as coisas à moda antiga, de forma caseira, no seu próprio alambique, em sua casa, imortalizando toda uma tradição.
















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